terça-feira, 16 de agosto de 2016

O NOSSO VESTIDO

O NOSSO VESTIDO 

Sonhei contigo. 
A gente ia viajar de trem. 
Estávamos atrasados. 
Você estava no banheiro da estação, queria me fazer uma surpresa. 
Me pediu que fosse na frente e retirasse as passagens. 
Enquanto estava na fila, senti teu cheiro. 
Olhei para trás, era você, dentro do meu vestido. 
De calça jeans e ele por cima, como um longo casaco florido. 
A barba mal feita e os olhos perfeitamente bem concebidos. 
Com aquelas molduras impecáveis. 
Das surpresas que mais amei, essa. 
O melhor buquê que já recebi até hoje. 
E fomos então, para algum lugar escolhido com alegria, pelos dois. 
Dividindo o mesmo phone de ouvido.
Para que com os outros ouvidos, pudéssemos nos ouvir.
Nem que fosse somente a respiração.
Só não dizia as coisas que estavam escritas na sua testa.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

ESTAÇÃO MEMÓRIA

Sim, naquele dia eu acordei esvaziada e numa tentativa de não me sabotar com tantos atropelos, decidi sair andando, descer correndo uma rua qualquer, sem placas. A ideia era essa, eu não reconheceria o lugar, ninguém me reconheceria e talvez ali eu me esquecesse um pouco de mim no meio dos outros. E só lembraria dela, essa "eu" sozinha no meio do nada. Era um embate difícil, eu comigo mesma. Um confronto adiado fazia anos. E nessa descida até mim na rua inclinada tive então um encontro: uma vitrine imensa de vidro bem limpo, onde eu poderia verdadeiramente me enxergar por um minuto de silêncio. "É ela!" Constatei. Sim... era ela, depois de tanto tempo chuvosa, era ela, ali, numa tentativa de primavera, como nos tempos de antigamente. Na boca pálida começou a florir então um esboço de sorriso que revelava os dentes pequenos de tanta ansiedade. Dentes que se encontravam todas as noites, que rangiam. Que doíam, que se enfrentavam numa tentativa de assassinar aquele monstro assustador que se apresentava todas as noites como "o tal bruxismo". Dentes pequenos, quase infantis começaram a se exibir no meio de uma moldura sardenta. Ela ria. Eu ria. Nós ríamos juntas. Isso durou um longo tempo que só foi interrompido quando percebemos que por trás de nós havia uma lânguida e antiga mulher de plástico, parada, nos olhando firmemente. Em sua cabeça, uma peruca imensa, dessas que revelam a idade. As preferências. As vaidades. Nos encaramos por um tempo. Decidi conhecer a sua casa. Um quadro empoeirado pintado de bolinhas, xadrez, listras. Cores feitas de seda, linho, muitos fios e... veludo! Ah, como eu gostava das saias macias de veludo. Do brilho do tecido debruçado sobre mim nos giros eternos ao som do piano. Das batatas cansadas de tanto vento nas pernas. Dos olhares entre as frestas das rendas que gargalhavam a cada tombo. Dos desenhos feitos de nuvens que se curvavam para me olhar. Decidi então adentrar no labirinto construído de cabides em busca de algo que me transformasse em uma de mim, novamente antiga. Que nos dias de hoje seria velha. Mas tinha parado lá naquela estação. Pequena. Esquecida de tudo. Tropeçando nas peças que gritavam "eu posso levar você até lá" ou "me lembro dessa criança" ou simplesmente "gire comigo e volte no tempo" eu finalmente vi o que queria. Era ela, uma combinação de blusa com fita e botões de madrepérola de um tecido de bolinhas em relevo que agora não lembro o nome. E essa blusa descansava a sua barra preguiçosa em uma saia godê de tecido leve com uma anágua fina, rosa velho. Casa velha. Lembrança velha. Juntas, blusa e saia formavam o meu par perfeito. Num salto estiquei os braços finos prontos para um abraço. Vesti. No espelho surgiu então uma de mim esquecida dentro de um baú trancado pela história. Uma de mim memória que eu queria reencontrar. E foi assim que então, naquele dia, esvaziada de "eu hoje", saí para brincar com uma outra de mim. A de ontem, de outro tempo, que não estava morta. Estava simplesmente esperando ansiosa para dançar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

tem parte em mim, inteira que parte - transe... - tempo tem, aqui, algo quente e líquido, guardado em duas taças brancas feitas de seios para ser tomado nos bicos úmidos de boca

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

anoitesol

tinha um sol já batendo na sua janela
tentava levantar, de raios tímidos, preguiçoso
ainda vestido com um pijama bem passado de noite
azul claro salpicado de estrelas
e ela indo dormir para acordar

cabana

e essa saudade do todo do corpo
e essa vontade do corpo do outro
do céu vermelho da boca
do peito de terra pra gente deitar

vontade de lua afogada nos olhos
de estrelas boiando na poça de vinho
do som do tambor na cadência nas mãos
dançando o "não sei quê de dois num só"

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Agosto.

O mês chegou trazendo um vento frio e uma nuca que saliva e ferve de madrugada.
A banheira renovada está pronta para afogar as suas angústias que andam congeladas em água morna. Águas dessas em temperatura que não servem para mudar nada de estado. Tudo anda ensopado de dúvida. A gota escorre pela janela dos olhos. As retinas embaçadas pela poeira confundem o que se tenta enxergar adiante. Tudo arde. A boca se abre, tenta gritar mas só consegue engolir mais um dia de chuva salgada que afoga a garganta.

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